Rede Mulher de Educação - avanços na equidade de gênero com as TIC

Para ampliar o processo de reflexão, formação e práticas em Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), a Rede Mulher de Educação realizou em São Paulo (Brasil), em parceria com a coordenação Regional para América Latina e Caribe do Programa de Apoio às Redes de Mulheres da Associação para o Progresso das Comunicações (APC/PARM), nos dias 20 e 21 de maio, a Oficina Avançando na eqüidade de gênero via Internet: Aplicação da ferramenta GEM/TICs (Metodologia de Avaliação de Gênero em novas Tecnologias da Informação e Comunicação). Para tal, contou com o apoio das agências internacionais Associação Mundial para a Comunicação Cristã (Wacc) e Novib.


Com a oficina, a Rede Mulher de Educação (RME) teve por objetivo dar continuidade às suas ações já desenvolvidas no marco de seu Programa Educomunicação, que trabalha a inter-relação direta entre os campos da educação e da comunicação para o avanço da proposta de relações de eqüidade e justiça social em um mundo globalizado. O trabalho, realizado durante o Encontro Anual da ONG, também foi conseqüência do aumento significativo do número de associdas/os-educadoras/es da RME a partir de meados de 2005 e da necessidade de discutir o tema com estas novas integrantes.


Foram responsáveis por todo o processo de construção, realização e coordenação do encontro a coordenadora-executiva da Rede Mulher de Educação e representante institucional no APC/PARM, Vera Vieira, e a argentina Dafne Sabanes Plou, coordenadora Regional para América Latina e Caribe do Progama de Apoio a Redes de Mulheres da APC – ambas jornalistas e comunicadoras sociais.


Participaram dos dois dias de atividades cerca de 40 educadoras da RME – entre elas, um sócio-educador – e pessoas convidadas.


A APC, por meio do PARM, é a autora da ferramenta GEM – a Metodologia que avalia projetos sobre TICs com uma perspectiva de gênero –, por meio da qual foi realizada a oficina. Nesse sentido, Dafne ressaltou que os debates também tiveram por objetivo estimular uma maior apropriação das TICs na vida cotidiana da RME, nas suas comunicações, nos seus trabalhos e intercâmbios, dando lugar para o conhecimento inovações e ferramentas tecnológicas que facilitam a tarefa da comunicação.



Uma questão de gênero?


Com mestrado na área de inter-relação da educação e comunicação (USP/ECA), Vera, que vem se dedicando à temática gênero e TICs, considera que as tecnologias da informação e comunicação, entre outros, são importantes em iniciativas e projetos de educação para mulheres de comunidades pobres e de alfabetização. “O uso das TICs fomenta e promove diferentes modelos de ensino e aprendizagem que se mostram práticos, funcionais, participativos e adaptáveis”.


Porém, como se constatou também pelas discussões durante a oficina, as mulheres são as que mais têm dificuldades de acesso à aquisição e à aprendizagem dessas novas tecnologias – que parecem ter surgido somente para serem usadas por homens. Além disso, as poucas profissionais mulheres na área de informática são vistas com preconceito, por ser este um trabalho considerado “de homens”. E, como salientou Vera, até o “gênero” das novas tecnologias é basicamente masculino: “O desenho das TICs é pensado por homens, e a maior parte das suas ferramentas são “masculinas”: o computador, o teclado, o disco rígido, o programa, o CD, o disquete... É impressionante! Isto é preconceito de gênero.”



Aprendendo e analisando TICs


Os dois dias de atividades provocaram muitos comentários, reflexões e até a criação repentina de dinâmicas musicais, fazendo referências a mulheres e TICs.


As coordenadoras do processo apresentaram todos os detalhes sobre o uso da ferramenta GEM – disponibilizada pela Internet em 2001 pela APC, e atualizada em 2006 –, estruturada em sete passos. Cada passo sugere leituras, dá exemplos, propõe atividades e fichas de trabalho, agrupados em três fases, que são:

Fase 1: Integração da análise de gênero, composta pelos passos 1 a 4;

Fase 2: Levantamento de informação utilizando indicadores de gênero e TIC, passos 5 e 6;

Fase 3: Pôr em prática os resultados da avaliação, composta pelo passo 7.


“As TICs não são uma panacéia, é importante que haja uma convergência delas com o rádio, jornais, para alcançar uma maior democratização da comunicação e participação”, frisou Dafne.


Tendo também este aspecto em conta, entre as atividades realizadas na oficina, educador/as e convidadas, individualmente e em grupos, trabalharam intensamente e, entre outros: levantaram e analisaram aspectos positivos e negativos das TICs na vida das mulheres – e também da sociedade em geral; avaliaram casos de gênero e TICs; estabeleceram indicadores e respectivas metodologias com base em casos específicos; propuseram projeto de telecentro.


O tema motivou as/o participantes de diferentes formas, tanto em grupo como individualmente, assim como incitou à multiplicação do processo pelas diferentes regiões do Brasil, onde se encontram as/os associadas/os-educadoras/es da Rede Mulher.



Democratização


Os debates entre as participantes, na opinião de Vera, deram destaque à importância do uso das TICs no conjunto da RME, visando a democratizar o poder e as responsabilidades, além de aumentar o grau do senso de pertencimento e ampliar as discussões em busca da eqüidade de gênero. “Para a ação na sociedade, viu-se a importância das TICs para ampliar a proposta da RME e do movimento de mulheres e feminista para um público heterogêneo, isto é, "fora do gueto".”


Da mesma forma, a integração das mulheres de áreas rurais com mulheres de áreas urbanas foi considerada por Dafne muito interessante pela sua aproximação com o tema das TICs. “Em todas elas pode-se ver o interesse em compreender essas novas ferramentas de comunicação, sua lógica e modalidades, sem que, por isto, se deixe de pensar com perspectiva de gênero nas questões que encerram a relação das mulheres com a tecnologia”.



Multiplicar e transformar


Para a coordenadora-executiva da RME, entre os resultados mais importantes da oficina, está o fato de as/o participantes terem assumido a temática da revolução tecnológica como algo irreversível, tornando as TICs instrumentos para a transformação das relações sociais de gênero, isto é, para além da questão instrumental. “Houve também a apreensão de que as TICs não são neutras em termos de gênero, tanto em seu desenho – criação, desenvolvimento e implementação – quanto no acesso e na utilização”, avaliou.


“Acredito que as mulheres tomaram consciência de que é importante se cercarem da tecnologia sabendo que têm todas as potencialidades e recursos necessários para se apropriarem delas e fazer um bom uso das mesmas, tanto para seu desenvolvimento pessoal quanto da organização ou movimentos dos quais participem”, salientou Dafne. Segundo a coordenadora regional do PARM/APC, as/o participantes tiveram resultados concretos para o funcionamento interno da Rede Mulher, cujas dinâmicas de comunicação foram beneficiadas graças ao trabalho durante a oficina.


Além disso, conforme Vera, as/o participantes viram claramente que toda a forma de evolução tecnológica das formas de transmissão de informação e conhecimento implica inclusão e exclusão. “Penso que este último tenha sido o ponto mais importante, com a participação aprofundada de todas e todos, inclusive com a detecção de todas as necessidades infra-estruturais e educativas necessárias para a inclusão digital.” E, utilizando a nova “linguagem” de comunicação escrita utilizada via Internet, concluiu: “A participação foi D+.”



TICs em debate


As/o participantes da Oficina levantaram e avaliaram as TICs. Veja alguns dos principais aspectos que foram a debate:


Positivos:

São rápidas; facitam a comunicação, o intercâmbio e a interação, o acesso à informação e ao conhecimento; promovem a comunicação em tempo real e sem fronteiras.


Negativos:

Preços altos dificultam o acesso a essas tecnologias; causam problemas de saúde, como Lesões por esforços repetitivos; dão excesso de informação e também informações fragmentadas; aprofundam a exclusão social; isolam as pessoas; transgridem os direitos humanos.


Expectativas:

Saber como trabalhar pela inclusão digital, em especial das mulheres; empoderar as mulheres; viabilizar uma gestão descentralizada; promover acesso em regiões pobres; ampliar conhecimentos.

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