Tecnologia de informação e saúde tem nome de mulher

Que “20 anos não é nada”, só é a letra de um conhecido tango. Para a organização brasileira CEMINA (Comunicação, Educação e Informação em Gênero), as dois décadas investindo no exercício da “voz”, abrindo canais que permitissem as mulheres falarem explicitamente no feminino, deixaram muitos aprendizados.


“No Brasil, 72% das mulheres nunca utilizaram um computador, 86% não tiveram contato com a internet e 30% nem sabem do que se trata a rede mundial de computadores”. Em outras palavras, um terço das mulheres brasileiras nem sabem do que se trata um computador. Esse panorama aparece no relatório mais recente do CEMINA e expõe a motivação que guiou o trabalho de todo esse tempo: o empoderamento das mulheres.


Começaram em 1988 com um programa de rádio, o “Fala Mulher”, veiculado em rádios comunitárias – e que ficou 15 anos no ar – , formando comunicadoras de todas as idades, servindo como modelo para inúmeras iniciativas de rádio semelhantes.


Tendo como públicos estratégicos as mulheres, agentes comunitárias, agentes de saúde, governos em seus níveis local e nacional e o sistema intergovernamental, em seus últimos anos de trabalho o CEMINA focou-se em proporcionar as mulheres o acesso às novas tecnologias de informação e comunicação. “Depois de ocupar as ondas do rádio de norte a sul do país, estamos dispostas a ocupar as ondas do ciberespaço, promovendo uma sinergia entre o que aprendemos do trabalho com o rádio e as novas tecnologias da comunicação e da informação”, asseguram.


Desde 1992, o CEMINA realizou mais de 300 cursos de capacitação em rádio e em muitos casos foram organizados para e em parceria com profissionais que trabalham com amamentação, prevenção do câncer, da AIDS, agentes de saúde e agentes comunitárias de áreas afetadas pela desertificação no nordeste do país.


Desde 1999, iniciou nova frente de capacitação em rádio e tecnologias de informação e comunicação, com a formação da Rede Cyberela, que foi uma das estratégias do Projeto de Inclusão Digital de Mulheres Comunicadoras do CEMINA. Composta por 29 comunicadoras e lideranças comunitárias especialmente selecionadas, as integrantes da Rede Cyberela receberam computador, softwares especializados em edição e montagem de programas de rádio, foram capacitadas para usá-los, obtiveram conexão por banda larga e são incentivadas a trocar estes conteúdos via internet. “Unir o potencial mobilizador do rádio à agilidade das novas tecnologias, promovendo o acesso das comunidades a essas ferramentas é uma maneira de fortalecer essas comunidades”, assinalam desde a organização.


O CEMINA também dispõe da Rádio Móvel Fala Mulher, que já percorreu o Brasil de norte a sul, sendo utilizada não só nas capacitações como também em transmissões em praça pública, mobilizando o público local.


Em 2002, o programa Fala Mulher ganhou dimensões de uma rádio na internet, disponibilizando conteúdos radiofônicos com foco de gênero e direitos humanos. Os programas e campanhas de saúde, antes enviados em fitas cassete ou CDs por correio, hoje estão disponíveis e podem ser ouvidos ou baixados gratuitamente do site da rádio.


Além do programa Fala Mulher, desde 1999 foram elaborados programas especiais e campanhas educativas sobre saúde da mulher, direitos sexuais e reprodutivos, DST/AIDS, amamentação e direitos humanos, entre outros temas, muitas vezes realizados em parceria com agências de desenvolvimento internacional como UNIFEM, UNICEF e FNUAP para democratizar as recomendações geradas nas grandes conferências da ONU.


Thais Corral, fundadora do CEMINA, coordenadora geral da organização e idealizadora da estratégia de inclusão digital que associa rádio à internet, falou com GenderIT.org e eis aqui suas respostas.


Flavia Fascendini: Eu sei que vocês levaram adiante várias produções em torno do tema saúde desde o Núcleo de Produções Fala Mulher: programas especiais e campanhas educativas sobre saúde da mulher, direitos sexuais e reprodutivos, DST/AIDS, amamentação, entre outros. Quais são as devoluções e impactos que obtiveram com isso? Como pode mudar a vida das mulheres?


Thais Corral: Acho que o rádio tem um grande papel educativo. Seu poder de mobilização é enorme dado a possibilidade de interatividade. Tivemos muito impacto com os programas de saúde, direitos reprodutivos, AIDs por que permitimos uma certa intimidade... Ajudamos com que elas saiam do silencio e possam dessa forma expor comportamento que não se sentiriam confortáveis de abordar.


Flavia Fascendini: Tiveram relação com o governo ou receberam algum tipo de cooperação para levar adiante estas produções? Existe a intenção de mobilizar as responsabilidades do Estado em matéria de políticas públicas de saúde através das produções radiofônicas sobre saúde? Obtiveram resultados concretos neste sentido?


Thais Corral: Durante muitos anos obtivemos resultados do programa nacional de combate a AIDS para nossas produções radiofônicas. Obtivemos inclusive apoio do Ministério da Saúde também. Acho que o principal resultado hoje é que a questão da saúde da mulher atrai mais atenção por parte das políticas públicas... Isso é uma conquista de muitos anos e de muitas frentes.


Flavia Fascendini: Que resgatam da experiência de Rádio Fala Mulher.com e em que se diferencia das produções radiofônicas tradicionais?


Thais Corral: A rádio Fala Mulher.com agregou ao trabalho que já vínhamos fazendo com as produções radiofônicas, no sentido que permitiu que um maior número de pessoas tivessem acesso as produções...


Flavia Fascendini: Como se trabalha o entrecruzamento entre gênero e saúde através das TICs? Que vantagens e desvantagens apresentam as TICs para o trabalho com temáticas de saúde e mulheres? Como se complementa isto com as capacitações? Qual é a resposta e a apropriação das mulheres?


Thais Corral: As TICs permitem a entrada das mulheres no mundo digital que as coloca em rede e permite o acesso a um numero maior de pessoas no mundo, novas articulações e horizontes... Acho que o fundamental é desenvolver as capacidades para ingresso nesse mundo.


Flavia Fascendini: CEMINA dispõe de um boletim eletrônico, rádio online e uma página na internet onde se pode acessar, além da informação institucional, todas as produções, programas radiais, vídeos... A convergência tecnológica foi para vocês um objetivo estratégico desde o início dos trabalhos ou isso foi agregado no caminho, de acordo com as oportunidades que apareciam? Vê algum sentido nessa convergência? Como a convergência de mídias pode impactar sobre a saúde das mulheres?


Thais Corral: Estamos readequando a página do CEMINA e em breve todas as nossas produções de campanhas estarão disponíveis para download... A convergência tecnológica foi para nós um objetivo estratégico a partir de 1999 pois foi fundamental associar o rádio às novas tecnologias da informação e formar as mulheres em capacidades para usá-las... Essa convergência é essencial. A questão da saúde sempre foi fundamental para as mulheres, sendo assim, essa convergência tende a ampliar possibilidades de informação e articulação.


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Otros artículos correspondientes a la edición:


Internet y activismo: se ignora el género en proyectos de TIC y VIH/SIDA de África (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=a&x=95446)


Reclamando nuestros derechos reproductivos en la red: el caso uruguayo (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=a&x=95435)


Prevenção positHIVa no nordeste de Brasil (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=a&x=95451)


Otros recursos correspondientes a la edición:


Descentralización de la provisión de servicios de salud: una oportunidad para el empoderamiento de las mujeres y la transversalización de la perspectiva de equidad de género (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=r&x=95428)


Globalización, Género y Salud - De la investigación a las políticas públicas (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=r&x=95426)


Globalización, género y salud: Relación entre la investigación y la generación de políticas (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=r&x=95425)


Acceso a información sobre salud sexual y reproductiva a través de la comunicación digital (http://www.genderit.org/en/index.shtml?w=r&x=95424)